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NADA DE SOLIDÃO!
14-02-2003
Não sou pessoa de sentir solidão. Vivendo só, não tenho nunca a sensação de abandono ou desolação. Nada disso!
Solteiro, aos 62 anos, vivo sozinho há 36 anos, desde que saí de casa de meus pais rumo à Venezuela, com uma bolsa de estudo. Lá vivi em residências estudantis, em “repúblicas” ou em quartos alugados, muitas vezes com colegas da universidade.
Somente passei a viver realmente sozinho quando vim morar em Brasília. Mas quase sempre tive a companhia de algum colega ou de minha sobrinha Maria da Graça Miranda da Silva, que já morou comigo em três oportunidades de sua existência.
Quando ela decidiu comprar a morada própria num condomínio nos arredores de Brasília (em Águas Claras), certamente alimentou a esperança de que eu fosse morar com ela e com a mãe. Eu preferi ficar no apartamento no Cruzeiro Novo, até porque estou muito acostumado com a minha solteirice.
Na chácara Irecê, em Cocalzinho (Goiás) é diferente. Os caseiros estão sempre por perto e o Humberto, que é uma espécie de anjo-da-guarda, vem sempre fazer uma visita antes de dormir. Tem sido assim nos últimos dez anos. Moramos na mesma chácara, ele numa casa com a família dele. E seguramente vai continuar assim enquanto eu estiver vivo. É uma grande segurança próxima da gente.
Em Pirenópolis (Goiás), na casa que estou concluindo a construção, tenho o apoio do Carlos Alberto e da Neide. Além, da alegria dos filhos Bruna e Jessica, que estão sempre perto de mim.
Recebo poucas visitas. O pretexto é o trabalho intenso na floricultura... Antes da produção de mudas e do cuidado das bromélias, vinham alguns amigos ver-me com certa frequência, principalmente minha amiga Sofia Vivo e a Lourdes Planas, estas da Embaixada da Venezuela.
Eles gostavam muito do passeio e até ficavam o fim de semana todo! Traziam amigos, cozinhavam, divertiam-se muito. Eu, docemente constrangido....Gostava muito da companhia deles.
Nos últimos tempos, só o Zenilton Gayoso vinha com frequência para hospedar-se na chácara, nos finais de semana, com o duplo pretexto da orientação acadêmica para a dissertação de mestrado que estava produzindo e pelo acompanhamento de seus conhecimentos sobre plantas e artes plásticas que animavam as nossas conversas. Mas a defesa da pesquisa já aconteceu e agora vem para elaborar peças de arte que logo vão para as paredes da casa da chácara.
O mal estado da estrada é outro motivo para evitar visitas.
Outra razão é que meu carro — uma camioneta Saveiro, só tem lugares para dois passageiros.
Durante a semana, passo o dia no trabalho, entre alunos e professores. Um ambiente intenso, com reuniões e aulas, com gente o tempo todo. E gosto muito do convívio acadêmico! Sou uma pessoa feliz na sala de aula.
Converso com todo mundo, inclusive com os funcionários sob minha supervisão.
À noite recolho-me no apartamento do Cruzeiro Novo, quase sempre cansado, muitas vezes depois de ir a um cinema, ao teatro, em exposições de obras de arte, ou de visitar amigos.
Um amigo que visito com frequência é o meu editor Victor Alegria, cuja editora (a Thesaurus) fica no meu trajeto entre a Universidade de Brasília e o meu apartamento.
A sala dele está sempre aberta para um papo... Ele gosta muito de mim e eu dele, cuja amizade já caminha para as três décadas.
Também converso a miúde com o meu amigo Raimundo Tadeu Corrêa, seja pelo telefone, pela internet ou pessoalmente (com menos frequência) pois é o meu “consultor literário”, sempre ao meu alcance... Sempre envia mensagens interessantes. Troca idéias, experiências, sentimentos. Uma amizade também de mais de 25 anos...
Também frequento a casa da Elga Pérez Laborde, minha amiga desde os tempos da Venezuela nos anos 60, e do Amaury Fassy, onde há sempre um almoço caseiro e fraterno à minha disposição e longas conversas sobre literatura e política...
Tenho outros amigos. Alguns no trabalho. Os goianos Maria Alice e Salviano — os Guimarães Borges. São assíduos. De vez em quando vou almoçar com eles no Lago Norte, onde moram. Gente boa, carinhosa. Mais raramente acompanho-os à fazenda Mugy, onde eles têm cavalos e bois, além de umas
quantas bromélias...
Não poderia esquecer do sempre atencioso Pedro Mattoso. São anos de fidelidade a um ritual de cortesias. Telefona sempre, envia cartas, presentes, visita-me no trabalho.
Frequento também alguns círculos culturais e literários, além de viagens constantes, com a oportunidade de rever amigos que vivem em outras cidades e países.
Como sentir-me só???
Saudades mesmo só de meus pais que faleceram há tantos anos e de meu amigo Milton Nocetti que durante mais de duas décadas, era o meu melhor amigo, meu confessor, meu colaborador em projetos profissionais e nos particulares como as coleções de cartões postais e bromélias.
Há dez anos que eu vivo só, salvo no período em que a minha sobrinha Graça veio com o filho passar uma temporada comigo.
Quando chego no apartamento, depois do banho deito-me no sofá e vou ler. Poesia, romance, paisagismo, ou trabalhos escolares.
Vejo pouca TV, quase sempre os telejornais da Globo ou da Record, alguns programas na TVE como Roda Viva, o Observatório da Imprensa, o Comentário Geral, pouca coisa mais, e nem sempre...
Próximo de casa construíram o Terraço Shopping, que é uma opção para um lanche ou para algum filme no cinema (raramente passam filmes de minha preferência...).
Ultimamente, nos últimos 6 meses, tenho recebido a visita do Nildo. É maranhense como eu. Ele é sempre muito gentil comigo, gosto muito de irmos juntos a restaurantes, a passeios e ao cinema ou a algum espetáculo. Uma vez por semana, às vezes duas. Como ele vive com uma mulher em Águas Lindas e trabalha o dia inteiro numa instituição de ensino, não tem muito tempo livre. Ainda assim, aparece sempre.
É muito raro que um jovem de 21 anos goste de companhia de alguém muito mais velho, para sair. Não acho nada estranho pois, na minha juventude, eu adorava sair com gente idosa...
Foto: www.imdb.com/pt/name/nm0956247
Um deles era o grande diretor de teatro Zbigniew Marian Ziembinski, ator e diretor polonês naturalizado brasileiro, no Rio de Janeiro, que me levava ao teatro e aos restaurantes. Como eu aprendi com a companhia dele, como eu me sentia orgulhoso e feliz com a companhia dele!!!
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